Olhó Pai Natal!

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Hoje, custou-me deixar o pequenino na creche. Já cheguei ao meu local de trabalho mas, só queria sair daqui e ir abraçá-lo… Não consigo impedir algumas lágrimas de correrem pela face. “O que é isso?! Outra vez a chorar?! Olha que o diretor não gosta de mulheres choronas! Vê lá se queres ficar sem o subsídio de Natal!”

Mais uma reunião para discutir os mesmos assuntos de sempre. Se ao menos ouvissem o que tenho para dizer… Quando peço a palavra, informam-me que a reunião é, meramente, informativa. Só as chefias têm poder opinativo… Mas não hoje! Hoje, vou falar, nem que tenha de berrar! Basta, hoje, vou dar um murro na mesa! “Não lhe admito este comportamento! Aqui está caladinho! E, se abrir a boca, fica sem subsídio de Natal!”

Acordei maldisposto… Não sei se foi algo que comi ou se estou a ficar doente. Hoje, como na cantina da empresa e ainda não sei qual é o almoço. A senhora da cantina enche-me o prato até cima. Não consigo comer nem metade. Levo, de volta, o meu tabuleiro, enquanto caminho, agoniado. “Ui, então não comeu nada! Tantas pessoas a passar fome e o senhor a desperdiçar comida! Toca a comer tudo, senão não recebe o subsídio de Natal!”

Finalmente acabaram as aulas e saio da faculdade. Percorro as ruas da baixa com as minhas amigas, a rir e a falar alto. “Parem lá com esses histerismos! Vá, sossegadas e caladinhas! Nada de saltos pela rua, senão o reitor cancela-vos a matrícula no Natal!”

Até que enfim, em casa. Estive até mais tarde no escritório, a fechar as contas de fim do mês, depois fiquei presa no trânsito, fui buscar os miúdos e, quando chegamos, já é hora de jantar… Tiro uma piza do congelador e meto-a no forno. Chamo os miúdos para a mesa. “Achas que isto é comida de jeito? Isto é saudável e nutritivo? Não achas que devias ter-te esforçado mais, mãe? Ou fazes melhor e deixas de ser preguiçosa, ou contamos ao pai e, no Natal, não vens connosco cear a casa dos avós.”

Não consigo dormir. Amanhã vou ter um dia cheio na loja, com a mudança para outra secção. Levanto-me, deambulo pelo corredor, vou beber água, volto para a cama mas, não consigo dormir. Acho que acabei por acordar a minha companheira. “Porque é que estás acordado? Sabes que horas são? Toca a dormir! Olha que o gerente da loja vê tudo e, se ele sabe que ainda estás acordado, não te promove no Natal!”

Deves ter achado isto muito estranho…

Talvez até ridículo, absurdo ou injusto.

No entanto, cerca de um mês antes do Natal, a maior parte das nossas crianças ouve, diariamente, da boca de vários adultos, a frase: “Olha que o Pai Natal não dá presentes a meninos/meninas que se portam mal!”

Qualquer comportamento, por parte duma criança, que um adulto ache desajustado ou incomodativo, é brindado com a ameaça natalícia.

Esta manipulação tem vários resultados… A criança cessa, momentaneamente, o comportamento apontado, por medo de represálias e sanções nas prendas. Ou reprime as suas emoções, por vergonha de poder constar numa lista de crianças malcomportadas. Ou percebe que vai ter de usar a mentira e o fingimento, e fazer de conta que se comporta da forma  que os outros esperam que o faça, quando estes a observam, vingando-se quando não o fazem. Ou aprende que, para se receber tem, primeiro, que se dar, tornando-a resistente a oferecer, colaborar ou partilhar, se achar que não tem nenhum retorno ou vantagem nisso.

E o Pai Natal, é tido como um inspetor de “bons modos”, de lápis na mão, pronto a rasurar nomes de crianças que não se alinhem com as expectativas dos adultos que se cruzam com elas.

Ora bem… Manipulação, medo, vergonha, mentira, fingimento, vingança, interesse, censura e controlo, não me parecem refletir aquilo que é o espírito de Natal.

Neste Natal oferece amor, bondade, presença e conexão. Tudo embrulhado com paciência e confiança. E, entrega-o pessoalmente… Deixa o Pai Natal descansar.

Feliz Natal!

da facilitadora,

Oriana Oliveira

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