Para, mãe!

augusta dantas parentalidade consciente

Recordo hoje os meus primeiros tempos de mãe de primeira viagem com muita compaixão. Recordo que o silêncio das montanhas altivas e envolventes da Suazilândia, onde vivia então, me parecia tão contrastante com o choro estridente e desesperante – sentia eu – de um bébé que parecia tentar falar comigo a cada momento… A luz quente e mágica daquele pequeno reino africano pareciam ser o único conforto que eu na altura conseguia encontrar e de onde retirava energia para tentar confiar que tudo iria ficar bem… um dia.

Percebo hoje que aquele choro interminável e aquela energia inalcançáveis tentavam comunicar comigo, com a criança que eu aprendera a esconder durante anos dentro de mim. A criança que eu dizia detestar cada vez que se manifestava sem pedir licença, a criança que eu rejeitava com todas as minhas forças para, pensava eu, evitar sofrer.

Acreditei durante muito tempo que cada vez que esse “lado criança” se manifestava era porque eu fracassava, era porque eu não tinha sido o suficientemente forte para a travar… E ela lá estava: em cada expressão facial tão nua e inconfundível que me denunciava os pensamentos, em cada gargalhada estridente e inconveniente até, em cada queixume quando sentia que alguma tarefa ou projecto tinha deixado de fazer sentido, em cada desistência de metas que um dia pareceram apostas certeiras e objectivos tão definidos, em cada arrepio que percorria todo o corpo ao ouvir uma música, ver um filme ou simplesmente através de um cheiro que trazia ao presente uma agradável memória do passado…

Depois de tantos anos a tentar-me ajustar para encaixar e sentir-me como os outros one in the crowd , eu perdera-me. Ao não permitir vir à luz o que afinal era também parte de mim – o meu lado espontâneo, sensível, sincero, emotivo e naturalmente feliz, – eu desaparecia cada vez mais na escuridão. Até que um dia percebi que há muito tempo simplesmente eu já não conseguia ver-me ou ouvir-me, a mim e aos sinais que o meu corpo teimava em mostrar.

O nascimento do meu filho permitira finalmente que esse grito de Ipiranga saísse de dentro de mim. Foi nesse processo de ser mãe pela primeira vez de um ser tão amoroso que eu percebi que tinha finalmente chegado o momento de fazer as pazes comigo e com a minha criança interior.

Hoje, nesta relação de Amor eu aprendo diariamente a receber as emoções mais agradáveis que a vida tem para mim, mas as menos também. Aprendo a receber a glória dos dias felizes e a tristeza dos momentos menos bons… Ainda me assusto por vezes quando fico triste sem aparente motivo e não entendo de imediato essa tristeza. É como se custasse mais aceitar algo cujo motivo eu entendo logo. Eu que sempre questionei tudo e sempre achei que precisava de respostas que me fizessem sentir mais segura.

Hoje sei que, por vezes, simplesmente não há respostas e algumas delas eu vou encontrar dentro de mim, cada vez que me permitir olhar para dentro e fazer as perguntas certas. Sem medo de me ver nua. Aceitando naturalmente o que vejo e sentindo compaixão por quem sou. Percebendo que a luz não existe sem a escuridão. O belo não existe sem o feio. E tudo isso faz parte de mim. Tudo isso sou eu.

O mundo da maternidade tem sido o processo mais desafiante pelo qual alguma vez passei, mas também o mais forte e revelador… Cada vez que eu me descontrolava, mais me olhava e menos gostava de mim… Só quando nos olhamos ao espelho e não nos reconhecemos mais, percebemos que nos perdemos algures no caminho e que é preciso voltar atrás, fazer o caminho de volta para casa e… recomeçar.

Ser mãe foi o meu recomeço. Foi quando recomecei também a ser filha por inteiro e a sentir uma compaixão imensa pela minha mãe. Foi isso que o João, o meu grande Mestre, me ensinou. Hoje sei que era isso que aquele choro me dizia “Está na hora de recomeçar!”

Hoje, neste caminho por uma maior consciência, eu ouço, e mesmo que nem sempre consiga entender logo, eu sinto e escuto-me.

Hoje eu ouço que há dias em que não me sei amar, hoje eu ouço que ainda tenho medo da mudança e de sair da minha zona de conforto, hoje eu ouço que a minha auto-estima está a crescer e que hoje eu também ouço e digo que escolho Amar, sobre todas as coisas. Hoje e sempre eu escolho o caminho do Amor, e não o medo, onde me escondi durante tanto tempo!

Há cerca de dois anos, ao ler livros como ”O Poder do Agora” ou o “Educar com Mindfulness” rapidamente vários wow me vinham à cabeça. Embora a minha postura fosse de curiosidade, não tinha mente de principiante nem sabia praticar a atitude da Paciência. Não conseguia sentir Aceitação dentro de mim e muito de mim era medo de não estar preparada para interiorizar o que iria ler. E, por isso, lia quase sempre como se tivesse urgência em encontrar medicamentos que me pudessem curar, lia com pressa para chegar algum lado na tentativa de decifrar alguma mensagem encriptada que levasse rapidamente à solução. Sim, seria bem mais fácil e menos doloroso se assim fosse. Mas todo esse processo de auto-descoberta e conhecimento interior implicava  dor e sofrimento – porque a mente ainda dominava. Implicava enfrentar o meu lado mais sombrio e encontrar ressentimento, raiva, mágoa…

Ainda não sabendo bem qual seria o meu futuro, nesse presente, eu procurava fazer as pazes com o meu passado e isso deveria ser suficiente. Mas não, não bastava. Eu queria respostas… A verdade é que eu já as tivera há muito, mas não as via. Os insights eram constantes mas eu não queria acreditar que me tinha perdido da minha essência, “des-sintonizado”.

Passara anos e anos à procura de ser amada primeiro por quem era,  depois aceite por quem queria ser e reconhecida por quem me ia tornando…Sempre à espera que vissem aquilo que eu fazia e não pela pessoa que eu era! Hoje sei que se eu me escondia de mim mesma, como poderiam os outros ver quem eu era? Escondia-me nas opiniões que não dava, na falta de assertividade que não assumia, nos limites que não expressava, nas preferências que silenciava.

Quando me comecei a conhecer a aceitar a minha imperfeição comecei a aceitar o meu filho. Quando reconheci essa criança que carrego cá dentro e que me completa, vi e ouvi o meu filho como se fosse pela primeira vez.

Lembro-me da emoção mágica que senti quando me vi pela primeira vez a sério a caminhar de mão dada com o meu filho em silêncio. Ouvir a cumplicidade das palavras daqueles momentos de silêncio é ainda hoje a sensação melhor que alguma vez encontrei… Ali, naquele entrelaçar de dedos eu sou tão feliz no que recebo e no que dou! Sinto que nesses momentos sou inteira porque regresso a mim, à minha essência.

Nos momentos de maior inconsciência, em que sinto que a vida me leva de novo em modo piloto-automático, aqueles olhos negros redondos e imensos dizem-me “Pára, mãe!”. E então eu sei que a minha bússola volta a encontrar o Norte e sigo para casa. Caminho para mim porque  hoje eu sei como encontrar o meu Norte.

Hoje eu sei que sou assumidamente conscientemente imperfeita  e aprendo em cada dia a gostar mais de mim assim. Sei que tenho um caminho longo a percorrer, o caminho de uma Vida, mas isso já não me assusta.

Nos últimos tempos,  a vida mostra-me de um modo tão simples, através das suas sincronias que hoje sim, que neste filme eu voltei a ser protagonista e a escrever diariamente o guião de uma história que afinal é a minha. Mostra-me que co-criando juntamente com o Universo tudo se alinha e a magia acontece. Pela primeira vez em muito tempo volto a traçar objectivos, a visualizar, a observar, a fazer, a esperar, a aceitar, a receber e, consequentemente… a ver acontecer. Assim, tão naturalmente, como se fosse a coisa mais simples e natural do Mundo: vivermos a nossa essência e permitirmo-nos simplesmente ser quem somos.

Hoje eu sei que não preciso esperar e confiar que tudo irá ficar bem um dia. Hoje eu confio que tudo está bem agora, no dia de hoje. Hoje eu confio em mim e na Vida.

Augusta Dantas

Nota: A autora não escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

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