O que levar na mala da maternidade?

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Três itens essenciais para uma Gravidez e Parentalidade Conscientes

Se pesquisarmos a palavra “gravidez” num motor de busca, podemos obter mais de 25.000.000 de resultados (e mais de 250.000.000 se procurarmos pelo termo em inglês). Portanto, não faltam dicas e conselhos na internet sobre o tema, o que coloca um dos maiores desafios dos dias de hoje: selecionar informação. E o desafio acresce quando pensamos naquele que é comummente designado por “cérebro de grávida”. Como vou lembrar-me de tanta informação? E isto não é exclusivo da mãe! Já ouviu falar no Síndroma de Couvade, no qual o pai pode apresentar sintomas associados à gravidez? A pensar em tudo isso, nada melhor do que uma sigla para lembrar 3 itens essenciais para levar na mala da maternidade: S.E.I.

 

Suporte
Espaço
Intenções

 

S = Suporte

 A palavra “suporte” pode significar, em Língua Portuguesa:

    aquilo que sustenta alguma coisa

            base, apoio, sustentáculo

            material de base

Fará, então, sentido pensarmos: O que poderá servir-me de base? Quais serão, para mim, as estruturas sobre as quais vou construir este novo papel? Para viver a minha experiência da gravidez, parto e maternidade/paternidade da forma que desejo?

Optei por dividir este suporte nos 3 que me parecem fundamentais: emocional, informativo e logístico.

Suporte Emocional

Face a todas as transições vividas pela família, parece óbvio que as famílias grávidas (isto é, mãe, pai e eventuais irmãos) precisem de algum apoio emocional, o que significa, literalmente, “apoio às suas emoções”. Mas nem sempre vemos este apoio a ser posto em prática, quer pelos próprios pais, quer pelas pessoas à sua volta. Vivemos numa sociedade ainda muito marcada pela vivência “em cubículo”, e continua a ser muito comum algum isolamento (mesmo que não declarado).

Ouvimos tantas vezes a célebre frase “é preciso uma aldeia para cuidar de uma criança” mas, na prática, o que fazemos como mães, pais, avós, tios, amigos, colegas, técnicos de saúde, para que essa aldeia tome forma e seja eficaz?  Sim, porque a criança já existe, ainda na barriga da mãe.

Como?

Um dos factores que pode proteger as famílias nesta fase é procurarem ativamente estar e conversar com pessoas que estejam a passar ou tenham passado pelo mesmo. Ou até que não tenham passado por isso de todo. O que me parece mesmo essencial é a atitude e a intenção que a pessoa traz consigo: alguém que esteja focado sobretudo em ouvir-nos ativamente, com o coração aberto, com compaixão, aceitando-nos e ao que trazemos (o que não significa que tenha de concordar), sem julgar. Que eventualmente nos informe, transmitindo confiança (falamos de seguida sobre suporte informativo). Pode ser muito tranquilizador e libertador só o facto de trocarmos algumas palavras com alguém que esteja neste “registo” ou “comprimento de onda”, chamemos-lhe assim.  E às vezes basta um abraço.

Esta partilha permite reorganizarmo-nos e criar algum distanciamento com a situação, aquilo que gosto de chamar de “olhar de águia”. Também pode ser bastante útil escrever o que sentimos e pensamos face às situações mais desafiantes, permitindo aprimorar este “olhar de águia”. E com este tipo de olhar, vislumbramos mais facilmente o leque de alternativas de que dispomos para agir, em vez de reagir. Deixo, então, a sugestão aos pais que procurem quem esteja disponível para si, independentemente de vos apetecer rir, chorar, falar sobre dúvidas, medos, inseguranças, inquietações ou manifestar o que seja que precisamos naquele momento. E aos “potenciais suportes”, que tomem consciência do impacto das suas palavras e ações nas experiências daquela família.

 

Suporte Informativo

Porque as decisões inerentes à maternidade são inevitáveis.

Com uma quantidade infindável de informação facilmente disponível, o desafio para a gravidez, parto e pós-parto é o de escolher informação fiável, baseada em evidência, que informe e transmita confiança. Os grupos de mães do Facebook podem até ser úteis mas importa relembrar que, frequentemente, são tecidos comentários menos conscientes e cujas intenções se afastam da informação isenta.

Como?

Caso escolham realizar um curso de preparação para o nascimento, parece-me fundamental encontrar um local/pessoas que lhe forneçam informação baseada em evidência e cujas práticas sejam reguladas pelos mesmos princípios. Relembrando que é uma decisão vossa, com implicações na vossa saúde e do vosso bebé.  

A pesquisa de conteúdos na internet pode realmente ser um desafio, por isso deixo aqui https://www.nice.org.uk/guidance/cg190, aqui www.evidencebasedbirth.com e aqui http://bionascimento.com/livro/ algumas páginas que podem apoiar as suas decisões (sem qualquer tipo de marketing).

Acredito que vamos sempre a tempo de realizar esta pesquisa. De qualquer forma, considero preferível que seja realizada, tanto quanto possível, com tempo e paciência, para poder tomar as suas decisões de forma ponderada e consciente. Invariavelmente, há-de chegar uma fase em que é tempo de parar de procurar, largar o que lemos e ouvimos, e conectarmo-nos connosco e com o nosso bebé.

 

Suporte Logístico

A ideia da mala da maternidade é sobretudo a de facilitar o pós-parto. Sabia que os primeiros 3 meses de vida extra-uterina são também chamados de “quarto trimestre”? O bebé está a adaptar-se a esta vida, tão diferente da vida in-utero – é preciso dar sinais para ser alimentado, a temperatura já não se mantém constante, há muito mais espaço, luz, barulho… E toda a família precisa de se reorganizar. Podem ser tempos incrivelmente intensos! O tempo foca-se nos cuidados ao bebé e em garantir que, dentro do tempo que sobra para cuidarmos da mãe, que esta garante a satisfação das suas próprias necessidades. E é tão comum esquecermo-nos de comer, beber água ou ir à casa de banho! Gosto muito do termo “lua-de-leite”, porque é isso que é suposto nessa fase: tempo para se conhecerem melhor, um enamoramento, o fortalecimento da ligação mãe-bebé-pai, momentos tranquilos e apaixonantes.

Como?

A ideia principal de uma mala para a maternidade é exatamente a de levarmos connosco itens para facilitar este processo. Assim, há quem opte por cozinhar e congelar comida algumas semanas antes da data prevista (há vários sites com dicas sobre o assunto). E porque não pedir ajuda às pessoas mais próximas da família? Pode pedir o que quer que lhe faça sentido: que preparem uma refeição, levem o cão à rua ou passeiem um pouco os filhos mais velhos pelo parque. No pós-parto, estes gestos poderão fazer toda a diferença na saúde da família. Cada um saberá o que o poderá ajudar a viver estas fases da forma mais plena.

 

E = Espaço

 

Sim, preciso de espaço na “mala”. Para quê? Para me permitir encontrar neste novo papel, nesta nova identidade. Para me ouvir, me conhecer, me reorganizar. Nesta que é a maior aventura de sempre, preciso de espaço para encontrar respostas às imensas questões que vão surgindo ao longo da gravidez, do parto, do pós-parto… de toda a parentalidade. Para ser simplesmente eu, sem os papéis que tenho de desempenhar ao longo do dia,  sem as tarefas que deixei por fazer. Como aquela imagem do descascar da cebola, com várias camadas. Parando, vou descascando, descascando, camada a camada, até encontrar o que tenho de encontrar. Como é que sei o que é mais importante para mim se não tenho tempo para o procurar?  Sem as pressões dos media para ser “assim ou assado”, porque me faz falta “isto ou aquilo”, sem as pressões da sociedade e do que acho que esperam de mim. Sem as pressões da minha própria bagagem, da minha história de vida.

Preciso de tempo e espaço para cuidar de mim. A grande maioria das pessoas sabe de cor aquele slogan “Se eu não cuidar de mim…”, que estava muito em voga há uns anos. Até que ponto o colocamos em prática, e em cada uma destas fases? E até que ponto eu, amiga, colega de trabalho, companheiro, patrão, permito que as grávidas à minha volta cuidem verdadeiramente de si e do bebé?

Sei que o amor incondicional que sinto pelo meu filho já existe e é inesgotável, não tem limites, mas também sei que irei precisar de muita energia e paciência para cuidar daquele que é o mamífero mais dependente de todos. E essa energia não é inesgotável. Então, nada melhor do que este período da gravidez para ir treinando os balões de oxigénio que precisarei, certamente, nos tempos que se avizinham.

E já pensou na importância que este espaço pode ter para se ligar ao bebé e construir esta nova relação? A investigação tem vindo a mostrar que esta ligação ainda dentro da barriga da mãe tem impacto no desenvolvimento do bebé e influencia as próprias experiências dos pais no desempenho deste novo papel. Pode experimentar falar com o bebé ou, caso não se sinta à vontade a fazê-lo, cantar para ele ou escrever-lhe algo. Lembre-se que, ao investir em cada momento para si, estando presente e consciente, este é um investimento em todos, inclusive nos outros filhos, se os tiver. Sim, se existem já outros filhos, sabe que a palavra “parar” é elevada a outro nível…

Como?

Uma das melhores formas que conheço para cuidar mais de mim e investir neste espaço é respondendo às seguintes perguntas:

O que é que eu gosto mesmo muito de fazer e que me faz sentir bem?

E mais?

E mais?

Sugiro que escreva, neste momento, as respostas a estas perguntas.

Passo seguinte: comprometa-se.

O que é que eu posso fazer a partir de hoje para começar a fazer, pelo menos, uma destas coisas?

Responda mesmo a esta questão, de preferência por escrito. Vai perceber que o grau de comprometimento aumenta.

Investir 5 ou 10 minutos do seu dia a fazer algo que goste muito pode fazer toda a diferença e ajudar a recarregar baterias (as tais que se esgotam, lembra-se?).  Talvez possa colocar o despertador 10 minutos mais cedo para dançar enquanto ouve a sua música preferida, para meditar ou tomar o pequeno almoço tranquilo. Comprometa-se consigo mesmo a fazer algo que o faça feliz diariamente, semanalmente e mensalmente.

Nota: Se neste momento está a pensar que não tem 10 minutos do seu dia para si, relembro que 10 minutos equivalem a 0,7% de um dia com 24 horas, isto é, 0,7% do seu dia para cuidar de si.

 

I = Intenções

Haverá melhor altura para definir as suas intenções como mãe/pai?

Porque é importante definir intenções? Porque são elas que nos vão guiar nesta enorme aventura. Se as tivermos bem presentes, sabemos se o que estamos a fazer naquele momento vai de encontro ao que é mais importante para nós ou, pelo contrário, se nos estamos a afastar do que definimos como mais importante. Com as minhas intenções bem definidas, tomo consciência do que quero e tomo decisões coerentes com essas intenções. Avalio se aquele meu comportamento está de acordo com os meus valores e com as minhas prioridades. E, provavelmente, tomarei decisões mais conscientes no que respeita à minha saúde e bem-estar e para o bebé que virá.

Como?

Para definir as suas intenções, poderá reflectir primeiro sobre as seguintes questões:

Quais são os valores mais importantes para mim? Que mãe/pai quero ser? Como quero que os meus filhos se lembrem de mim daqui a 30 anos? Como quero que recordem o ambiente na nossa família? O que é mais importante para mim? Como quero recordar esta experiência (ex: parto) daqui a 20 anos?

De seguida, num momento tranquilo e onde não seja interrompido, escreva numa folha de papel as suas intenções e o que vai fazer para colocá-las em prática. O que é que eu quero? O que quero sentir? O que vou fazer para isso acontecer?

Coloque este papel num ou vários locais visíveis, onde possa passar e relembrar estes “faróis”. Por experiência própria, nos primeiros dias é mais frequente tomarmos mais atenção e, com o hábito, vamos esquecendo de olhar e “parar”. Por isso, sugiro que os vá colocando em locais menos prováveis e não se esqueça de as revisitar de vez em quando, porque podem sempre ser reescritas.

(Para um conhecimento mais aprofundado sobre este tema, aconselho a leitura do novo livro da Mia “Heartfulness”, com um capítulo inteiramente dedicado a este tema).

Fico a aguardar as vossas partilhas, experiências e como se sentiram com estas práticas, no meu facebook ou na zona dos comentários aqui no blog.

No próximo artigo, falarei mais sobre o “Espaço” e sobre práticas simples e que podem ajudar bastante a viver o parto e pós-parto de forma mais plena e consciente.

Até breve!

Jordana Cardoso

Agradeço à Vanessa Ventura Rodrigues, facilitadora de Parentalidade Consciente, os comentários a este texto antes da sua publicação.

Foto: William Stitt

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