Confias que tens tempo para Confiar?

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Em Setembro do ano passado a minha filha de 10 anos estava a iniciar o quinto ano, um ano de transição com mais desafios, mais professores e novidades.

Eu tinha definido como uma das intenções para mim como mãe, confiar na capacidade da minha filha em assumir responsabilidades por algumas tarefas, nomeadamente pela gestão dos trabalhos de casa, do tempo de estudo, e da preparação da mochila para o dia seguinte de aulas.

Só não estava certa se conseguiria confiar o tempo suficiente para lhe dar tempo a ela para o conseguir fazer…

Pois, porque confiar uma vez e ver o que acontece é fácil, mas confiar diariamente, mesmo quando os resultados não são os desejados, esse é o verdadeiro desafio como pais.

Tivemos uma conversa em que concordámos que ela seria responsável pelos trabalhos de casa, que decidia quando os fazia, que confiava nela para decidir se precisava de estudar mais, ou se já se sentia confortável com o que sabia. Que confiava também que ela pediria ajuda a mim ou ao pai sempre que precisasse, e que a preparação da mochila a cada dia seria também da sua responsabilidade.

Escusado será dizer que foi um processo de aprendizagem para ela e para nós. Houve esquecimentos, as notas desceram um pouco nos primeiros testes. Foi desafiante para ela no início perceber os seus limites, as suas necessidades, o seu nível de responsabilidade, e as consequências naturais das suas acções…

Foi muito desafiante para mim largar a necessidade de controlar, de não julgar, de não avaliar, dar-lhe espaço e tempo para se adaptar. Nem sempre com sucesso, tive muitas vezes de parar, observar o que estava a acontecer, fazer uma pausa para ponderar o que dizer? O que fazer? Ou simplesmente deixar estar…

Afinal se ela estava a ter dificuldades não era por incapacidade dela, mas sim por incapacidade nossa de confiar, porque sempre tínhamos feito tudo por ela…

Foi desafiante simplesmente confiar…

Quando surgiram as primeiras notas mais baixas, perguntei-lhe apenas como se sentia com a nota.

Disse-me: acho que consigo fazer melhor, pensei que sabia mais.

Perguntei-lhe o que ia fazer e disse-me: vou estudar mais um pouco. (Ufa…Alívio…)

Encontrámos formas de mostrar o nosso interesse e reconhecimento, sem cobrar, sem julgar, apenas fazendo perguntas e dizendo coisas diferentes como por exemplo:

-Reparei que já terminaste os trabalhos, eram de que disciplina? O que estás a aprender agora? O que achas mais difícil? E mais fácil?

-Fico muito feliz por preparares a tua mochila, é uma grande ajuda para mim.

-Parabéns pela nota, como te sentes com essa nota depois do teu esforço a estudar?

Passados alguns meses a minha filha assumiu com tranquilidade a responsabilidade por estas questões. Claro que por vezes se esquece de algo, claro que há dias em que lhe apetece mais fazer os TPC do que outros, mas não somos todos assim?…

Confiar é uma dupla dádiva. É uma dádiva que eu dou à minha filha, para que possa explorar as suas capacidades e limites, para que possa perceber até onde pode ir. Uma dádiva para que possa compreender que as suas acções têm consequências naturais, aprender a gerir as mesmas, e a forma como se sente em relação a isso.

É uma dádiva para mim, porque confiar liberta-me de preocupações que sinto agora desnecessárias, e permite-me observá-la a crescer e a tornar-se autónoma, com uma auto-estima reforçada.

Fico feliz pela minha filha e por mim, por eu confiar agora que consigo ter tempo para confiar.

Margarida Cancela

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